Zainab apareceu na porta, com a mão apoiada no batente. Ela usava um xale de um azul profundo e seus olhos sem vida pareciam penetrar as vestes refinadas de Julian.
“E você?”, perguntou ela. “Vim terminar o trabalho dele?”
Julian ajoelhou-se sobre a lama congelada. A aldeia prendeu a respiração coletivamente.
“Vim pagar os juros de uma dívida de dez anos”, respondeu Julian. “A cidade está apodrecendo, Zainab. Os médicos são charlatães que exploram os pobres por ouro. Os hospitais são necrotérios. Estou construindo uma Academia Real de Medicina e quero que seu diretor seja o homem que salvou um menino moribundo em uma cabana de barro.”
Yusha enrijeceu. “Sou um homem morto, Excelência. Não posso voltar para a cidade. Sou um mendigo. Um fantasma.”
“Então o fantasma terá uma carta de concessão”, disse Julian, levantando-se e puxando um pesado pergaminho de sua túnica. “Assinei um decreto. Todos os ‘crimes’ passados do médico Yusha estão apagados. O Grande Incêndio é oficialmente registrado como um desastre natural. Estou lhe dando o poder de treinar uma nova geração. Não na arte de buscar ouro, mas na arte de curar.”
A oferta era tudo o que Yusha um dia sonhara: restauração, prestígio e a chance de mudar o mundo. Ele olhou para Zainab. Viu como ela inclinou a cabeça em direção às montanhas que conhecia por seus ecos.
“E quanto à minha esposa?”, perguntou Yusha.
“Continue para a próxima página.”
“Ela será a Matrona da Academia”, disse Julian. “Dizem que ela ouve as batidas do coração de uma doença antes mesmo de um médico tocar no paciente. Ela é a alma desta operação.”
A aldeia prendeu a respiração. Malik, pai de Zainab, rastejou para fora das sombras de seu barracão, os olhos faiscando de ganância. “Aceite!” Ele gritou, sua voz um murmúrio patético. “Levem o ouro! Podemos voltar para a propriedade! Podemos ser reis novamente!”
Zainab não olhou para o pai. Nem sequer reconheceu sua existência. Estendeu a mão e encontrou a de Yusha, seus dedos entrelaçados aos dele.
“Não somos mais as pessoas que viviam naquela cidade”, disse Zainab ao governador. “Aquela versão de nós morreu no fogo e na escuridão. Se formos, não iremos como elites ‘restauradas’. Iremos como os mendigos que aprenderam a enxergar.”
“Aceito seus termos”, disse Julian, um pequeno sorriso genuíno quebrando sua fachada pétrea.
A partida não foi um grande desfile. Levaram apenas suas ervas, seus instrumentos de prata e as lembranças da cabana.
Enquanto a carruagem subia a colina em direção à cidade, Zainab sentiu o ar mudar. O cheiro do rio se dissipou, substituído pelo odor denso e complexo de pedra, fumaça e humanidade.
“Você está com medo?”, sussurrou Yusha, puxando as peles para se aconchegar ao redor dela.
“Não”, respondeu ela, apoiando a cabeça no ombro dele. “A escuridão é a mesma em todos os lugares, Yusha. Mas agora, nós carregamos a luz.”
No vale abaixo, a casa de pedra permanecia vazia, mas o jardim continuava a crescer. Anos depois, viajantes parariam ali para colher um ramo de lavanda, contando a história da jovem cega que se casou com um mendigo e acabou ensinando um reino a curar.
Dizem que em certas noites, quando o vento sopra na direção certa, ainda é possível ouvir a voz de um homem descrevendo as estrelas para uma mulher que as enxergava com mais clareza do que qualquer outra pessoa.
O fogo havia levado o passado deles, a escuridão moldara o presente, mas juntos, eles haviam forjado um futuro que nenhuma chama poderia tocar e nenhuma sombra poderia ocultar.