Vendeu a casa porque o anúncio dizia: "Venha ser vizinho de Caymmi..." 😂 A história👇👇

112 anos de Dorival Caymmi e o Cancioneiro Praieiro .
Na mansidão do menestrel Caymmi o segredo do mar absoluto

Ele aprendeu o segredo da vida.
"Música com pressa é aquela droga que tem às pampas sobrando por aí".
Caymmi é um dos maiores poetas da MPB. Um dos pais da música popular brasileira. Não fez nada ruim, porque não tinha pressa
Um artista que cantou o mar como ninguém.
Um mar telássico, baiano e apimentado. O mar e seus mistérios. O
mar tem mais segredos quando é calmaria, assim como Caymmi e sua eterna placidez de homem que encontrou o segredo da vida. A vida e os costumes da sua aldeia – suas cores, cheiros e pregões foram imortalizados em canções buriladas como uma jóia.
“Quem quiser vatapá, que procure fazê”. João é valentão, mas tem seus momentos na vida, quando a noite é de lua na beira da praia. Por quê?
“Porque não há sonho mais lindo do que sua terra, não há”. “Quem vem pra beira do mar, ai. Nunca mais quer voltar”. O que é que a baiana tem?, foi uma música imortalizada pela cantora Carmem Miranda e divulgou a baiana e o Brasil para o mundo inteiro.
Um homem bonito e apaixonante que soube cantar o amor como ninguém: “você não sabe amar, meu bem”. “Amar é tolice”. “O amor acontece na vida”, e o poeta tá de mal com Marina: “Marina, você se pintou”. Um dos sambas mais belos compostos por Caymmi é, Dora:

Dora
Rainha do frevo
E do maracatu.
Dora
Rainha cafuza de um maracatu
Te conheci no Recife
Dos rios cortados por pontes,
De bairros, das fontes,
coloniais
A poesia caymminiana é uma poesia com temática doméstica. São os pregões
que já não existem mais, os amores eternos, os pescadores e suas vidas
aventurosas, etc. O pescador tem dois amores, um na terra e outro no mar.
A jangada sai pro mar. O pescador quando sai não sabe se volta. Para
agradar, traz um peixinho do mar. Muitas vezes o vento dobra a esquina, o
mar fica bravo e o barco volta só. O poeta sublima e diz que “é doce
morrer no mar”. Em Cantiga de Nova, a tristeza da noiva: “é tão triste
ver partir”.
Um pouco mais de uma centena de obras primas foram compostas por esse
homem que tira das vozes do dia-a-dia e da natureza o alimento da alma de
suas músicas eternas. Muitos cantaram a sua música, mas ninguém melhor
que o próprio autor soube interpretar suas canções. Uma voz de baixo
aveludada e profunda com o mar que ele cantou como ninguém. A música
está no ar, e é de quem pegar primeiro, dizia o nosso senhor do samba,
Sinhô. A poesia está no ar e nas vozes dengosas que o “baiano
preguiçoso” transforma em canções e melodias, eternas. A suíte dos
pescadores de Caymmi é um dos hinos do Brasil oceânico. A música “O mar”
foi utilizada na peça “Joujoux e Balangandans”, de Henrique Pongetti.
Joujoux e Balangandans é uma marchinha do grande compositor Lamartine
Bobo e foi um espetáculo beneficente preparado pela primeira dama Dona
Darcy Vargas
“ O mar
quando quebra na praia
é bonito… é bonito
O mar…
Pescador quando sai
Nunca sabe se volta
Nem sabe se fica… ”
Para rezar, batizar, crismar e casar a Bahia tem trezentas e sessenta e
cinco igrejas. “Uma incelença entrou no paraíso. Adeus, irmão adeus. Até o
dia de juízo”.
Caymmi é um artista quase completo. Ele também foi um excelente pintor e
ator no filme “Estrela da Manhã“ (1948), dirigido por Oswaldo Marques de
Oliveira. Casado com a cantora Stella Maris, teve três filhos, grandes
músicos e cantores. Dori, Danilo e Nana Caymmi fazem parte da famosa
família Caymmi. A família Caymmi gravou os discos gravados em shows no
Scala 2 do RJ (1987) e Montreux ( 1991).
Para ninar a filha Nana Caymmi, uma das maiores cantoras do Brasil, ele
compôs a famosa “Canção de Ninar”, dedicada a Stella: “ É tão tarde/
amanhã já vem/ Todos dormem / A noite também/… . A música termina com um
trecho do folclore;
- Boi, boi, boi,
Boi da cara preta
Pegue essa menina
Que tem medo de careta.
Cancioneiro da Bahia
O primeiro Cancioneiro de um músico popular do Brasil foi o Cancioneiro da
Bahia de Dorival Caymmi. O livro foi editado pela Livraria Martins Editora
com prefácio do escritor Jorge Amado e belíssimas ilustrações do pintor
Clóvis Graciano, em 1947. O livro trás trechos de partituras e letras do
cancioneiro caymminiano e divide-se em três partes: Canções do Mar,
Cantigas do Folk-lore Baiano e Sambas. O cancioneiro, palavra tão bela
para designar um conjunto de canções ou conjunto de poesias líricas de uma
época, foi substituído pela feia palavra “songbook”. São famosos os
Cancioneiros da Ajuda e do Vaticano.

CARTA DE CAYMMI PARA JORGE AMADO
“Jorge, meu irmão, são onze e trinta da manhã e terminei de compor uma linda canção para Yemanjá, pois o reflexo do sol desenha seu manto em nosso mar, aqui na Pedra da Sereia. Quantas canções compus para Janaína, nem eu mesmo sei, é minha mãe, dela nasci.
Talvez Stela saiba, ela sabe tudo, que mulher, duas iguais não existem, que foi que eu fiz de bom para merecê-la? Ela te manda um beijo, outro para Zélia e eu morro de saudade de vocês.
Quando vierem, me tragam um pano africano para eu fazer uma túnica e ficar irresistível.
Ontem saí com Carybé, fomos buscar Camafeu na Rampa do Mercado, andamos por aí trocando pernas, sentindo os cheiros, tantos, um perfume de vida ao sol, vendo as cores, só de azuis contamos mais de quinze e havia um ocre na parede de uma casa, nem te digo. Então ao voltar, pintei um quadro, tão bonito, irmão, de causar inveja a Graciano. De inveja, Carybé quase morreu e Jenner, imagine!, se fartou de elogiar, te juro. Um quadro simples: uma baiana, o tabuleiro com abarás e acarajés e gente em volta.
Se eu tivesse tempo, ia ser pintor, ganhava uma fortuna. O que me falta é tempo para pintar, compor vou compondo devagar e sempre, tu sabes como é, música com pressa é aquela droga que tem às pampas sobrando por aí. O tempo que tenho mal chega para viver: visitar Dona Menininha, saudar Xangô, conversar com Mirabeau, me aconselhar com Celestino sobre como investir o dinheiro que não tenho e nunca terei, graças a Deus, ouvir Carybé mentir, andar nas ruas, olhar o mar, não fazer nada e tantas outras obrigações que me ocupam o dia inteiro. Cadê tempo pra pintar?
Quero te dizer uma coisa que já te disse uma vez, há mais de vinte anos quando te deu de viver na Europa e nunca mais voltavas: a Bahia está viva, ainda lá, cada dia mais bonita, o firmamento azul, esse mar tão verde e o povaréu. Por falar nisso, Stela de Oxóssi é a nova iyalorixá do Axé e, na festa da consagração, ikedes e iaôs, todos na roça perguntavam onde anda Obá Arolu que não veio ver sua irmã subir ao trono de rainha?
Pois ontem, às quatro da tarde, um pouco mais ou menos, saí com Carybé e Camafeu a te procurar e não te encontrando, indagamos: que faz ele que não está aqui se aqui é seu lugar? A lua de Londres, já dizia um poeta lusitano que li numa antologia de meu tempo de menino, é merencória. A daqui é aquela lua. Por que foi ele para a Inglaterra? Não é inglês, ne…;///PAR TO