A próxima parte muda tudo.
Recusei-me a doar minha medula óssea para meu enteado de nove anos, que estava morrendo, depois que os médicos nos disseram que eu era a única compatível.
"Só fiz parte da vida dele por três anos", declarei friamente. "Não vou arriscar minha saúde por uma criança que nem é minha."
Essas palavras soaram frias até para mim, mas naquele momento me convenci de que eram lógicas. Doar medula óssea não era trivial. Havia riscos, complicações e um período de recuperação. Eu repetia para mim mesma que mal conhecia aquele menino quando me casei com o pai dele. Não estive presente em sua infância, em seus primeiros passos, nem em seu primeiro dia de aula.
Por que eu deveria me sacrificar por uma criança que não era realmente minha?
Meu marido não protestou. Esse silêncio, paradoxalmente, me enfureceu ainda mais.
Sem dizer mais nada, arrumei minha mala e fui para a casa da minha irmã.
Esperava que meu telefone tocasse nos dias seguintes. Talvez meu marido implorasse. Talvez os médicos ligassem de novo para me pressionar. Talvez alguém me dissesse que eu não tinha coração.
Mas nada aconteceu.
Nenhuma ligação.
Nenhuma mensagem.
Silêncio total.
Pensei que isso significava que eles tinham encontrado outra solução. Talvez tivessem encontrado outro doador. Talvez os médicos estivessem tentando novos tratamentos. Talvez meu marido estivesse ocupado demais no hospital para se preocupar comigo.
Duas semanas se passaram antes que a culpa finalmente me obrigasse a ir para casa.
Disse a mim mesma que só ia dar uma olhada.
Só queria saber como as coisas estavam indo.
Mas assim que cruzei a porta, tive um mau pressentimento.
As paredes da sala estavam cobertas de desenhos.
Dezenas deles.
Talvez centenas.
Esboços desajeitados e irregulares, unidos por pedaços de fita adesiva médica branca. Traços de lápis cobriam o papel como tempestades de cor.
Figuras palito com cabeças gigantes.
Um homem alto.
Um menino menor.
E ao lado deles, uma mulher de cabelos longos.
Acima de cada desenho, escrita com letras trêmulas, aparecia a mesma palavra:
"Mamãe."
Um nó se formou na minha garganta.
Aproximei-me, percebendo que os desenhos variavam ligeiramente. Em alguns, o menino segurava a mão da mulher. Em outros, eles estavam em frente a uma casa. Um mostrava as três figuras sob um enorme sol amarelo.
Todos estavam legendados da mesma forma.
Mamãe.
Eu nem tinha notado meu marido parado atrás de mim.
"Você voltou", disse ele suavemente.
Virei-me para encará-lo. Ele parecia exausto: olheiras profundas, os ombros caídos como se não dormisse há dias.
"O que... o que é tudo isso?", sussurrei.
Ele não respondeu imediatamente.
Em vez disso, me conduziu até o pequeno cômodo no final do corredor.
Diminuí o passo ao ver a cama de hospital montada lá dentro.
As máquinas zumbiam suavemente. Tubos se estendiam sobre os lençóis.
Continue lendo na próxima página.
E lá estava ele.
Meu enteado.
Tão pálido.
Tão mais magro do que antes.
Ao lado da cama havia um recipiente de plástico cheio de pequenas estrelas de papel dobradas.