Por um segundo, eu não a reconheci.
O cabelo dela não estava mais lá. Não como antes. Estava cortado de qualquer jeito, desigual, com mechas na altura do queixo e outras quase coladas nas orelhas. Parecia que alguém tinha destruído com raiva.
Ela caminhava olhando para o chão. Os olhos vermelhos, a respiração curta, as mãos apertando o vestido.
“Isabela… o que aconteceu?”
Ela tentou sorrir, mas se quebrou.
“Cortaram, mãe.”
Senti o mundo apagar.
“Quem?”
“A vovó… e a tia Renata.”
Eu a abracei enquanto ela chorava contra meu peito. Ela disse que queria ir para casa, mas algo dentro de mim ficou frio.
“Ainda não.”
Entrei com ela. Renata estava recolhendo pratos descartáveis como se nada tivesse acontecido. Minha mãe limpava a mesa e meu pai comia bolo sentado no sofá.
“O que vocês fizeram com o cabelo da minha filha?”
Renata nem demonstrou vergonha.
“Pedimos para ela prender o cabelo. Ela não quis. Então cortamos.”
“Como é?”
Minha mãe suspirou.
“Não faz drama, Luciana. É só cabelo.”
Renata completou, com a voz cheia de veneno:
“A Manuela estava chorando. Era o aniversário dela e sua filha chegou como se fosse a rainha da festa. O que você queria que a gente fizesse?”
Olhei para Isabela. Ela tremia.
Eu não gritei. Não quebrei nada. Só peguei a mão dela e saímos.
Mas, enquanto eu fechava a porta, ouvi meu pai dizer:
“Assim ela aprende a deixar de ser exibida.”
E ali eu entendi que aquilo estava só começando.
Eu não podia acreditar no que ainda estava por vir…
No caminho para casa, Isabela quase não falou. Ficava tocando o cabelo como se ainda não entendesse para onde ele tinha ido. Eu dirigia com as mãos tão apertadas no volante que meus dedos doíam.
Quando chegamos, preparei um chá de camomila. Ela sentou na cozinha com um moletom largo, as pernas encolhidas e o olhar perdido.
Então disse a frase que terminou de me destruir:
“Eles me seguraram, mãe.”
Coloquei a xícara na mesa.
“O que você disse?”
“Eu disse que não. A tia Renata me empurrou numa cadeira. A vovó segurou meus braços. O vovô falou que ia servir de lição. E a Manu gritava pra cortar mais curto na frente.”
Senti náusea.
“Alguém te ajudou?”
Ela negou com a cabeça.
“O Pedro estava filmando com o tablet. Ele ria. Disse que ia mandar no grupo da família.”
Ali eu parei de sentir medo. Comecei a sentir clareza.
“Isabela, o que eles fizeram não foi uma brincadeira. Eles te tocaram sem permissão, te prenderam e te humilharam. Isso é agressão.”
Ela levantou o olhar.
“Então eu não estou exagerando?”
Me ajoelhei na frente dela.
“Não, meu amor. Eles querem que você pense isso porque é conveniente pra eles.”
Perguntei se ela queria denunciar. Não pressionei. Disse que apoiaria qualquer decisão.
Ela levou alguns segundos.
“Quero. Quero que eles saibam que isso não foi certo.”
Entreguei meu celular e ela escreveu para o Pedro:
“Eu sei que você gravou. Pode me mandar o vídeo?”
Trinta segundos depois chegou.