Sem desculpa. Sem medo. Só um emoji rindo e o arquivo.
Assistimos juntas.
Durava quinze segundos.
Isabela aparecia chorando, dizendo: “Não, por favor, não.” Renata puxava uma mecha. Minha mãe segurava seus ombros. Meu pai, com um prato de bolo na mão, dizia: “Deixa, pra ela aprender.” Manuela gritava: “Mais curto, mais curto!” E Pedro ria atrás da câmera.
Quando acabou, Isabela não chorou.
Só disse:
“Vamos.”
Fomos à delegacia naquela mesma noite. Fomos atendidas por uma escrivã chamada Almeida. Ela ouviu Isabela com uma paciência que eu nunca vou esquecer. Assistiu ao vídeo duas vezes. Seu rosto mudou de gentil para sério.
“Vamos registrar a ocorrência”, disse. “Também vamos acionar o Conselho Tutelar.”
Isabela respondeu às perguntas com uma calma que partia meu coração. Já não parecia uma criança assustada. Parecia uma criança cansada de ser feita culpada por existir.
No dia seguinte, começou o inferno.
Minha mãe ligou primeiro.
“Você enlouqueceu? Denunciar a própria família por um corte de cabelo?”
“Não foi um corte. Foi agressão.”
“Você vai nos destruir.”
“Vocês começaram quando tocaram na minha filha.”
Desliguei.
Depois foi Renata. Chorava. Dizia que o Conselho Tutelar tinha ido até a casa dela, que perguntaram sobre a Manuela, que avaliaram o ambiente familiar.
“Luciana, por favor, retira a denúncia. Isso saiu do controle.”
“Não. Pela primeira vez, as consequências chegaram na hora certa.”
Naquela tarde, elas postaram a versão delas no Facebook.
Disseram que Isabela tinha pedido para mudar o visual. Que eu era problemática. Que sempre quis diminuir a Renata. Que eu estava usando minha filha para vinganças antigas.
As pessoas começaram a comentar.
“Coitada da família.”
“Luciana sempre foi exagerada.”
“Que absurdo, cabelo cresce.”
Mostrei tudo para Isabela. Achei que ela fosse desmoronar.
Mas não.
Ela olhou para mim e disse:
“Posta o vídeo.”
A verdade estava a um clique de incendiar tudo.
E ninguém estava preparado para o que viria a ser revelado em seguida…